terça-feira, dezembro 27, 2011

FELIZ ANO NOVO!!!



Um brinde a vida! FELIZ ANO NOVO!!! FELIZ TODOS OS DIAS DE NOSSAS VIDAS!!!

Feliz 2012, 2013, 2014, 2015, 2020, 2030...
Feliz todos os dias de sua vida.
Não tenha medo da vida.
Faça e refaça os caminhos.
Se cair, levante!
Se sorrir, brinde!
Felicidades no plural
Felicidade é feita de pequenos momentos...
Mas tim tim a todos eles!!!
"Feliz idade"
Todos os dias são dias novos!
Enquanto estamos por aqui é preciso brindar a VIDA!!!
De: Lubeba's Colibbri

Paula Fernandes - Passaro de Fogo

FELICIDADES NO PLURAL NO ANO NOVO!!! FELIZ 2012!!! FELIZ TUDO PARA TODOS QUE AMO, ADMIRO E RESPEITO!!!


Feliz ano novo. Feliz 2012!! Feliz Ano Novo



Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.



                                                                            Chico Xavier

RECEITA DE ANO NOVO







Para você ganhar belíssimo Ano Novo


cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,


Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido


(mal vivido talvez ou sem sentido)


para você ganhar um ano


não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,


mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;


novo


até no coração das coisas menos percebidas


(a começar pelo seu interior)


novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,


mas com ele se come, se passeia,


se ama, se compreende, se trabalha,


você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,


não precisa expedir nem receber mensagens


(planta recebe mensagens?


passa telegramas?)






Não precisa


fazer lista de boas intenções


para arquivá-las na gaveta.


Não precisa chorar arrependido


pelas besteiras consumadas


nem parvamente acreditar


que por decreto de esperança


a partir de janeiro as coisas mudem


e seja tudo claridade, recompensa,


justiça entre os homens e as nações,


liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,


direitos respeitados, começando


pelo direito augusto de viver.






Para ganhar um Ano Novo


que mereça este nome,


você, meu caro, tem de merecê-lo,


tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,


mas tente, experimente, consciente.


É dentro de você que o Ano Novo


cochila e espera desde sempre.






Carlos Drummond de Andrade


Feliz ANO NOVO!
FELICIDADES NO PLURAL!!!
DESEJO À TODOS SAÚDE!!!
FELIZ TUDO!!!
BACIOS, LUBEBAS

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Dama da Noite...

                                           Dama da noite...
                                           Gotas cristalinas de Deus banham a linda Dama da noite
                                                  no quintal.
                                          Sublime emoção e luminosidade livre, leve e sensível.
                                          Permaneço observando o espetáculo da Mãe Natureza,
                                                  com zelo e paixão.
                                          A noite inteira é dela, só dela.
                                          Perfumada de amor e com segredos,
                                                 a Dama da noite me convida a viver uma noite única e plena.
                                          Na manhã que chega, ela se despede adormecendo lentamente e
                                                                 fatal...


                                                       De: Lubeba's Colibbri

A POESIA DA DAMA DA NOITE...

A POESIA DA DAMA DA NOITE...

Gotinhas de chuva banhavam a Dama da noite.
Um presente pleno e puro da Mãe Natureza.
Perfume encantador e livre.
Iluminando naturalmente o quintal de casa.
Lubebas Colibbri

Noite de Natal no quintal de casa... A Natureza na plenitude da poesia... A luminosidade da DAMA DA NOITE!



Damas da noite no quintal de casa.

A vida na exatidão de uma flor...
A Dama da noite silenciosamente e perfumada, invade a noite de Natal no quintal de casa. Tamanha beleza e pureza. Elegância e luz da Mãe Natureza. Tomo banho de chuva e fico com a máquina fotográfica esperando o momento exato da beleza de sua plenitude de uma noite pequena.
Lubebas

sábado, dezembro 10, 2011

Os mistérios de Clarice - PEDRO kARP VARQUEZ

Os mistérios de Clarice


Pedro Karp Vasquez



Quem escreveu: “Sou tão misteriosa que não me entendo”, não poderia mesmo ser facilmente interpretada. Contudo, até as mais impenetráveis esfinges se preocupam em oferecer, aqui e ali, pistas para a decifração de seus enigmas. Os textos de Clarice Lispector estão repletos de chaves e senhas, mesmo que estas porventura abram apenas caixas que escondem outras caixas, que escondem outras caixas que escondem outras caixas... As pistas que possibilitavam rastrear o caminho até seu eu profundo, Clarice concedia apenas aos familiares e aos amigos íntimos, mas poucos foram os que as seguiram até o fim, imbuídos da certeza de que não convém decifrar certos mistérios para não lhes embaçar o esplendor.








É difícil definir bem a própria irmã. Sempre fomos muito unidas, Clarice, Tânia e eu. Lembro-me que na infância, Clarice demonstrou logo ser independente, imaginativa e cheia de ternura. Tivemos todas uma vida muito agradável e feliz no Recife, e temos muitas saudades daqueles tempos. Embora casadas, e muitas vezes morando muito longe, estávamos sempre em contato umas com as outras, seja por carta, ou telefone. O que mais impressiona em Clarice não é fato de ser irmã, e ótima como sempre foi, mas como tornou-se mãe maravilhosa. Sua maior qualidade é ser absolutamente realizada em casa. Sua sensibilidade extremamente apurada capta as sutis reações dos filhos, atendendo-os e amparando-os em todas as situações. Fora isso, gosta de música, não é gulosa, e é sobretudo um tanto frugal. Não é política, e antes de tudo, é uma dedicadíssima dona de casa. Provando assim que uma mulher pode se realizar em dois setores diferentes em grande escala.

Clarice pela irmã, Elisa Lispector, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.

















Clarice Lispector deixou de ser um nome para ser um fenômeno de nossa literatura. Um fenômeno com todas as características de um estado emocional, quero dizer, que as admiradoras de Clarice entram em transe à simples menção de seu nome. Não querem escrever artigos, querem fazer teses. Não querem notas, querem livros. E a grande autora de “Perto do Coração Selvagem” transformou-se num monstro sagrado, ela que desejava apenas ser uma escritora humana. Clarice para mim é a autora de “Perto do Coração Selvagem” e de “O Lustre”, dois romances que eu gostaria de ver mais lidos e estudados. Também é autora dos contos admiráveis de “Laços de Família”. E por que não a de “A maçã no escuro”? Não, não é esta nem a de “Cidade sitiada”. Alguns acham que eu tenho má vontade com esses dois romances. É que quase ninguém sabe que Clarice Lispector, com “O Lustre”, se tornou uma das minhas mais violentas paixões literárias. E quem ama exige.

Clarice Lispector pelo crítico e ensaísta, ganhador do Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, Fausto Cunha, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.













A partir do conhecimento que um amigo nos oferece começamos a compreender a necessidade de acumular tudo aquilo que — um receber explicando o que se entrega — nos ajuda a elaborar o que se é. Não há dádiva compensando-se como esta. Talvez por isto tenha-se pudor de explicar porque se admira, porque apenas se quer bem — quando, do outro lado, existente e integral, encontra-se Clarice Lispector, quando a linguagem acessível, onde nem mesmo se dispensa o embaraço, é tanto mais aquela que sem esclarecer sente-se constrangida apenas de reconhecer. A tarefa de identificar Clarice Lispector é extremamente penosa: não é fácil atribuir-lhe o que ela própria ultrapassa, ou retirar-lhe aquilo que tão naturalmente ela ilumina, na sua constante vigília de gente. Não sei confessar admiração que se abastece cada vez mais na sua parte humana, onde a generosidade, nobreza, bondade obrigam-me a aceitar apenas o que idealisticamente recebera crédito — pois certas aprendizagens são sempre imperfeitas na sua arrecadação. Nunca silenciei, no entanto, quanto ao seu desempenho de criadora. Considerei-a sempre, cada vez com um entusiasmo mais moderado e por isso mesmo menos sujeito a transformações, uma escritora insuperável, cuja categoria intelectual, para vergonha nossa, ainda não foi devida e necessariamente reconhecida. Embora dissesse pouco, apenas no silêncio vai-se ao encontro de um amigo.



Clarice Lispector pela escritora, jornalista e professora Nélida Piñon, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.









Na última fase da vida de Clarice surgiram outros, mas desde o princípio de sua vida literária fui de seus melhores amigos. Recentemente minha mulher, encarregada de uma exposição sobre ela na Casa de Cultura Laura Alvim, por ocasião dos dez anos de sua morte, ficou surpreendida ao verificar, consultando o acervo na Casa de Rui Barbosa, que a parte substancial da sua correspondência eram as cartas trocadas comigo ao longo da vida.

Em 1943 recebi em Belo Horizonte um exemplar com dedicatória de um romance chamado Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, que eu não sabia quem era. Também não sabia por recomendação de quem, talvez de Lúcio Cardoso.

Fiquei deslumbrado com o livro.

Rubem Braga conheceu Clarice em Nápoles durante a guerra — Maury Gurgel valente, seu marido, servia lá como diplomata. Quando ela veio ao Brasil, Rubem nos apresentou um ao outro.

Fiquei deslumbrado com ela.

Imediatamente nos tornamos amigos, de encontro diário, enquanto ela esteve aqui. Depois que deixou o país, a amizade continuou, intensamente vivida através de cartas, com uma freqüência ás vezes semanal, de 1946 a 1969 — durante 23 anos, portanto.

Trocávamos idéias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens “perto do coração selvagem da vida”: o que transparece em nossas cartas, que reli recentemente, é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, que nos fazia solidários ante o enigma que o futuro reservava para nosso destino de escritores.

Tornei-me uma espécie de agente literário de Clarice no Brasil. Andava às voltas com editoras para os seus livros e encaminhando seus contos para revistas. Como Senhor, por exemplo, dirigida por Paulo Francis e Nahum Sirotsky, aos quais a apresentei, numa visita que fizemos à redação da revista, na rua Santa Clara, quando ela voltou ao Brasil.

Levei-a também para os Cadernos de cultura, excelente coleção dirigida por Simeão Leal no Ministério da Educação. Saiu uma edição com o título Mistério em São Cristóvão e com um erro no nome da autora — Clarice com dois SS —, que por causa disso recolhemos, hoje uma raridade. Depois saiu outra, chamada Alguns contos, com o nome certo.

Nos originais que ela me enviou de Washington, onde passou a morar, do romance A maçã no escuro, título que sugeri — ia se chamar A veia no pulso —, fiz 340 sugestões... Ela aceitou praticamente todas. Acabei sendo eu próprio seu editor, com Rubem Braga, na Editora do Autor e a Editora Sabiá.

Lembrança de Clarice pelo escritor, cronista, editor, produtor e diretor Fernando Sabino. Foi um dos mais fiéis e dedicados amigos de Clarice, empenhando-se em encontrar editor para seus livros e publicando-os depois em sua própria editora, a Sabiá. Texto extraído de O tabuleiro de damas. Trajetória do menino ao homem feito. Rio de Janeiro: Editora Record, 1988.









Clarice Lispector é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice.

Clarice Lispector, por Fernando Sabino. O escritor já havia terminado sua longa carta, tendo, inclusive, assinado-a. Mas, parece que ao perceber que ainda resta meia folha disponível, lançou-se nesse improviso lírico, assinando-o ao final. Carta manuscrita, enviada de Nova York e datada de 10 de junho de 1946. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.









Porisso (sic) não te posso mandar nenhuma palavra animadora. Digo apenas que não concordo com você quando você diz que faz arte apenas porque “tem um temperamento infeliz e doidinho”. Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de nós todos, passou pela janela, na frente deles todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado. Você tem de ser equilibrista até o fim da vida. E suando muito, apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame já percorrido e do arame a percorrer — e sempre tendo de exibir para o público um falso sorriso de calma e facilidade. Tem de fazer isso todos os dias, para os outros como se na vida não tivesse feito outra coisa, para você como se fosse sempre a primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário seu número será um fracasso.

Carta de Fernando Sabino, enviada de Nova York em 6 de julho de 1946.. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Clarice por Clarice


Pedro Karp Vasquez

Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.



A descoberta do amor

“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.

Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.

Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.

Pois juro que a vida é bonita.”



Temperamento impulsivo



“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”



Lúcida em excesso



“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.



Ideal de vida



“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.

O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.

[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.

É pouco, é muito pouco.”



Escritora, sim; intelectual, não



“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.

[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?

O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”



A síntese perfeita



“Sou tão misteriosa que não me entendo.”



A certeza do divino



“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”



Viver e escrever



“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”

“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.

O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”

“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.



A importância da maternidade



“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”



Viver plenamente



“Eu disse a uma amiga:

— A vida sempre superexigiu de mim.

Ela disse:

— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.

Sim.”



Um vislumbre do fim



“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”



Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.



Leia também Os mistérios de Clarice









HOMENAGEM A ETERNA CLARICE LISPECTOR.Clarice Lispector, nascida Haia Pinkhasovna Lispector (Tchetchelnik, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora e jornalista brasileira, nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira.

BiografiaDe origem judaica, Clarice foi a terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. Nasceu na cidade de Tchetchelnik enquanto seus pais percorriam várias aldeias da Ucrânia por conta da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921. Chegou ao Brasil quando tinha dois meses de idade[1], e sempre que questionada de sua nacionalidade, Clarice afirmava não ter nenhuma ligação com a Ucrânia - "Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo" - e que sua verdadeira pátria era o Brasil.[2]




A família chegou a Maceió em março de 1922, sendo recebida por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin. Por iniciativa de seu pai todos mudaram de nome, exceto Tânia, sua irmã. O pai passou a se chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia, sua irmã, Elisa; e Haia, por fim, Clarice. Pedro passou a trabalhar com Rabin, já um próspero comerciante.[1] Com dificuldades de relacionamento com Rabin e sua família, Pedro decide mudar-se para Recife, então a cidade mais importante do Nordeste.



Clarice Lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade do Recife, onde passou parte da infância no bairro de Boa Vista. Estudou no Ginásio Pernambucano de 1932 a 1934. Falava vários idiomas, entre eles o francês e o inglês. Cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno, o iídiche.



Sua mãe morreu em 21 de setembro de 1930 (Clarice tinha apenas 9 anos), após vários anos sofrendo com as consequências da Sífilis, supostamente contraída por conta de um estupro sofrido durante a Guerra Civil Russa, enquanto a família ainda estava na Ucrânia. Clarice sofreu com a morte da mãe, e muitos de seus textos refletem a culpa que a autora sentia e figuras de milagres que salvariam sua mãe.[2]



Quando tinha 15 anos seu pai decidiu se mudar para o Rio de Janeiro. Sua irmã Elisa conseguiu um emprego no ministério, por intervenção do então ministro Agamemnon Magalhães, enquanto seu pai teve dificuldades em achar uma oportunidade na capital. Clarice estudou em uma escola primária na Tijuca, até ir para o curso preparatório para a Faculdade de Direito. Foi aceita para a Escola de Direito na então Universidade do Brasil em 1939. Se viu frustrada com muitas das teorias ensinadas no curso, e descobriu um escape: a literatura. Em 25 de maio de 1940, com apenas 19 anos, publicou seu primeiro conto "Triunfo" na Revista Pan.



Três depois, após uma cirurgia simples para a retirada de sua vesícula biliar, seu pai Pedro morre de complicações do procedimento. As filhas ficam arrasadas com as circunstâncias da morte tão inesperada, e como consequência Clarice se afasta da religião judaica. No mesmo ano, Clarice chama a atenção (provavelmente com o conto "Eu e Jimmy") de Lourival Fontes, então chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (órgão responsável pela censura no Estado Novo de Getúlio Vargas), e é alocada para trabalhar na Agência Nacional, responsável por distribuir notícias aos jornais e emissoras de rádio da época. Lá conheceu o escritor Lúcio Cardoso, por quem se apaixonou (não correspondido, já que Lúcio era homossexual) e de quem se tornou amiga íntima [2].



Em 1943, no mesmo ano de sua formatura, casou-se com o colega de turma Maury Gurgel Valente, futuro pai de seus dois filhos. Maury foi aprovado no concurso de admissão na carreira diplomática, e passou a fazer parte do quadro do Ministério das Relações Exteriores. Em sua primeira viagem como esposa de diplomata, Clarice morou na Itália onde serviu durante a Segunda Guerra Mundial como assistente voluntária junto ao corpo de enfermagem da Força Expedicionária Brasileira. Também morou em países como Inglaterra, Estados Unidos e Suíça, países para onde Maury foi escalado. Apesar disso, sempre falou em suas cartas a amigos e irmãs como sentia falta do Brasil.



Em 10 de agosto de 1948, nasce seu primeiro filho, Pedro, em Berna na Suiça.[3]. Quando criança Pedro se destacava por sua facilidade de aprendizado, porém na adolescência sua falta de atenção e agitação foram diagnosticados como esquizofrenia. Clarice se sentia de certa forma culpada pela doença do filho, e teve dificuldades para lidar com a situação.[2]



Em 10 de fevereiro de 1953, nasce Paulo, o segundo filho de Clarice e Maury, em Washington, D.C., nos Estados Unidos.[3]



Em 1959 se separou do marido que ficou na Europa e voltou permanentemente ao Rio de Janeiro com seus filhos, morando no Leme.[2] No mesmo ano assina a coluna "Correio feminino - Feira de Utilidades", no jornal carioca Correio da Manhã, sob o pseudônimo de Helen Palmer. No ano seguinte, assume a coluna "Só para mulheres", do Diário da Noite, como ghost-writer da atriz Ilka Soares.



Provoca um incêndio ao dormir com um cigarro acesso em 14 de setembro de 1966, seu quarto fica destruído e a escritora é hospitalizada entre a vida e a morte por três dias. Sua mão direita é quase amputada devido aos ferimentos, e depois de passado o risco de morte, ainda fica hospitalizada por dois meses.[3]



Em 1975 foi convidada a participar do Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, em Cali na Colômbia. Fez uma pequena apresentação na conferência, e falou do seu conto "O ovo e a Galinha", que depois de traduzido para o espanhol fez sucesso entre os participantes. Ao voltar ao Brasil, a viagem de Clarice ganhou ares mitológico, com jornalistas descrevendo (falsas) aparições da autora vestida de preto e coberta de amuletos. Porém, a imagem se formou, dando a Clarice o título de "a grande bruxa da literatura brasileira". Seu próprio amigo Otto Lara Resende disse sobre a obra de Lispector: "não se trata de literatura, mas de bruxaria." [2]



Foi hospitalizada pouco tempo depois da publicação do romance A Hora da Estrela com câncer inoperável no ovário, diagnóstico desconhecido por ela. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário. Foi enterrada no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro. Até a manhã de seu falecimento, mesmo sob sedativos, Clarice ainda ditava frases para a amiga Olga Borelli.[2]



Durante toda sua vida Clarice teve diversos amigos de destaque como Fernando Sabino, Lúcio Cardoso, Rubem Braga, San Tiago Dantas e Samuel Wainer, entre diversos outros literários e personalidades.


Em dezembro de 1943, publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. Escrito quando tinha 19 anos, o livro apresenta Joana como protagonista, a qual narra sua história em dois planos: a infância e o início da vida adulta. A literatura brasileira era nesta altura dominada por uma tendência essencialmente regionalista, com personagens contando as dificuldades da realidade social do país na época. Clarice Lispector surpreendeu a crítica com seu romance, seja pela problemática de caráter existencial, completamente inovadora, seja pelo estilo solto, elíptico e fragmentário. Este estilo de escrita se tornou marca característica da autora, como pode ser observado em seus trabalhos subsequentes.




Na época da publicação, muitos associaram o seu estilo literário introspectivo a Virginia Woolf ou James Joyce, embora ela afirme não ter lido nenhum destes autores antes de ter escrito seu romance inaugural.[4] A epígrafe de Joyce e o título, inspirado em citação do livro de Joyce Retrato do Artista quando Jovem, foram sugeridos por Lúcio Cardoso após o livro ter sido escrito. Perto do coração selvagem ganhou o prêmio da Fundação Graça Aranha de melhor romance de estreia, em outubro de 1944.[3]



Em 1946, em uma viagem ao Rio de Janeiro , lança seu segundo livro O Lustre.



Em 1964 Clarice lança dois livros: A Legião Estrangeira, uma coletânea de contos, e o romance A Paixão segundo G.H.. Ambos os livros foram publicados pela Editora do Autor, liderada pelos amigos Fernando Sabino e Rubem Braga.



Em 1970, começa a escrever um novo livro com o título de Atrás do Pensamento: Monólogo com a Vida. Mais tarde é renomeado de Objeto Gritante. Finalmente é lançado em 1973 com o título definitivo de Água Viva. O livro foi sucesso de crítica e público, ao ponto de o cantor Cazuza o ter lido 111 vezes [2][3].



Durante a década de 1970, após ser demitida do Jornal do Brasil (todos os judeus que trabalhavam na publicação foram demitidos neste período), a autora começa a traduzir obras do francês e do inglês para a Editora Artenova. Entre as obras estão contos de Edgar Allan Poe, O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, dois romances de Agatha Christie e Entrevista com o Vampiro de Anne Rice.[2]



Em 1974, publicou mais dois livros de contos, novamente pela Artenova: A Via Crucis do Corpo e Onde Estivestes de Noite. A primeira edição deste último foi retirada de circulação porque foi colocado um ponto de interrogação no título, erroneamente.[3]. Já A Via Crucis levantou polêmica com seu alto caráter sexual, e por não ter sido considerado à altura dos outros trabalho de Clarice, a revista Veja e o Jornal do Brasil chegaram a chamar a obra de "lixo".[2]



A obra de Clarice ultrapassa qualquer tentativa de classificação. A escritora e filósofa francesa Hélène Cixous vai ao ponto de dizer que há uma literatura brasileira A.C. (Antes da Clarice) e D.C. (Depois da Clarice).



Além de escritora, Clarice foi colunista do Jornal do Brasil, do Correio da Manhã e Diário da Noite. As colunas, que foram publicadas entre as décadas de 60 e 70, eram destinadas ao público feminino, e abordavam assuntos como dicas de beleza, moda e comportamento. Em meados de 1970, Lispector começou a trabalhar no livro Um sopro de vida: pulsações, publicado postumamente. Este livro consiste de uma série de diálogos entre o "autor" e sua criação, Angela Pralini, personagem cujo nome foi emprestado de outro personagem de um conto publicado em Onde estivestes de noite. Esta abordagem fragmentada foi novamente utilizada no seu penúltimo e, talvez, mais famoso romance, A Hora da Estrela. No romance, Clarice conta a história de Macabéa, uma datilógrafa criada no Estado de Alagoas que migra para o Rio de Janeiro e vai morar em uma pensão, tendo sua rotina narrada por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M. O livro descreve a pobreza e a marginalização no Brasil, temática que pouco aparece ao longo da sua obra. A história de Macabéa foi publicada poucos meses antes da morte de Clarice.