"Gravuras, séries de desenhos, fotos, pensamentos e Poemas" Autoria: Lubebas - ( lbbassani@gmail.com)
quinta-feira, dezembro 29, 2011
VIVA UM DIA DE CADA VEZ EM 2012!
Tdo de bom em 2012!!!
Erre sem medo. Seja verdadeiro! Ame loucamente! Realize! Beije muito! Faça de novo. Trabalhe o necessário. Grite! Sorria com prazer! Cuide de você! Sonhe! Viva! Use a imaginação. Chore com vontade. Descubra. Importe-se menos. Seja você mesma. Veja novas possibilidades! Um novo ano está ai!
Divirta-se!
Erre sem medo. Seja verdadeiro! Ame loucamente! Realize! Beije muito! Faça de novo. Trabalhe o necessário. Grite! Sorria com prazer! Cuide de você! Sonhe! Viva! Use a imaginação. Chore com vontade. Descubra. Importe-se menos. Seja você mesma. Veja novas possibilidades! Um novo ano está ai!
Divirta-se!
quarta-feira, dezembro 28, 2011
"Erre sem medo. Seja verdadeiro! Ame loucamente! Realize! Beije muito! Faça de novo. Trabalhe o necessário. Grite! Sorria com prazer! Cuide de você! Sonhe! Viva! Use a imaginação. Chore com vontade. Descubra. Importe-se menos. Seja você mesma. Veja novas possibilidades! Um ano novo está ai! Divirta-se!"
terça-feira, dezembro 27, 2011
Um brinde a vida! FELIZ ANO NOVO!!! FELIZ TODOS OS DIAS DE NOSSAS VIDAS!!!
Feliz 2012, 2013, 2014, 2015, 2020, 2030...
Feliz todos os dias de sua vida.
Não tenha medo da vida.
Faça e refaça os caminhos.
Se cair, levante!
Se sorrir, brinde!
Felicidades no plural
Felicidade é feita de pequenos momentos...
Mas tim tim a todos eles!!!
"Feliz idade"
Todos os dias são dias novos!
Enquanto estamos por aqui é preciso brindar a VIDA!!!
De: Lubeba's Colibbri
Feliz todos os dias de sua vida.
Não tenha medo da vida.
Faça e refaça os caminhos.
Se cair, levante!
Se sorrir, brinde!
Felicidades no plural
Felicidade é feita de pequenos momentos...
Mas tim tim a todos eles!!!
"Feliz idade"
Todos os dias são dias novos!
Enquanto estamos por aqui é preciso brindar a VIDA!!!
De: Lubeba's Colibbri
Feliz ano novo. Feliz 2012!! Feliz Ano Novo
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.
Chico Xavier
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Feliz ANO NOVO!
FELICIDADES NO PLURAL!!!
DESEJO À TODOS SAÚDE!!!
FELIZ TUDO!!!
BACIOS, LUBEBAS
segunda-feira, dezembro 26, 2011
Dama da Noite...
Dama da noite...
Gotas cristalinas de Deus banham a linda Dama da noite
no quintal.
Sublime emoção e luminosidade livre, leve e sensível.
Permaneço observando o espetáculo da Mãe Natureza,
com zelo e paixão.
A noite inteira é dela, só dela.
Perfumada de amor e com segredos,
a Dama da noite me convida a viver uma noite única e plena.
Na manhã que chega, ela se despede adormecendo lentamente e
fatal...
De: Lubeba's Colibbri
Gotas cristalinas de Deus banham a linda Dama da noite
no quintal.
Sublime emoção e luminosidade livre, leve e sensível.
Permaneço observando o espetáculo da Mãe Natureza,
com zelo e paixão.
A noite inteira é dela, só dela.
Perfumada de amor e com segredos,
a Dama da noite me convida a viver uma noite única e plena.
Na manhã que chega, ela se despede adormecendo lentamente e
fatal...
De: Lubeba's Colibbri
A POESIA DA DAMA DA NOITE...
A POESIA DA DAMA DA NOITE...
Gotinhas de chuva banhavam a Dama da noite.
Um presente pleno e puro da Mãe Natureza.
Perfume encantador e livre.
Iluminando naturalmente o quintal de casa.
Lubebas Colibbri
Noite de Natal no quintal de casa... A Natureza na plenitude da poesia... A luminosidade da DAMA DA NOITE!
Damas da noite no quintal de casa.
A vida na exatidão de uma flor...
A Dama da noite silenciosamente e perfumada, invade a noite de Natal no quintal de casa. Tamanha beleza e pureza. Elegância e luz da Mãe Natureza. Tomo banho de chuva e fico com a máquina fotográfica esperando o momento exato da beleza de sua plenitude de uma noite pequena.
Lubebas
segunda-feira, dezembro 19, 2011
quinta-feira, dezembro 15, 2011
segunda-feira, dezembro 12, 2011
sábado, dezembro 10, 2011
Os mistérios de Clarice - PEDRO kARP VARQUEZ
Os mistérios de Clarice
Pedro Karp Vasquez
Quem escreveu: “Sou tão misteriosa que não me entendo”, não poderia mesmo ser facilmente interpretada. Contudo, até as mais impenetráveis esfinges se preocupam em oferecer, aqui e ali, pistas para a decifração de seus enigmas. Os textos de Clarice Lispector estão repletos de chaves e senhas, mesmo que estas porventura abram apenas caixas que escondem outras caixas, que escondem outras caixas que escondem outras caixas... As pistas que possibilitavam rastrear o caminho até seu eu profundo, Clarice concedia apenas aos familiares e aos amigos íntimos, mas poucos foram os que as seguiram até o fim, imbuídos da certeza de que não convém decifrar certos mistérios para não lhes embaçar o esplendor.
É difícil definir bem a própria irmã. Sempre fomos muito unidas, Clarice, Tânia e eu. Lembro-me que na infância, Clarice demonstrou logo ser independente, imaginativa e cheia de ternura. Tivemos todas uma vida muito agradável e feliz no Recife, e temos muitas saudades daqueles tempos. Embora casadas, e muitas vezes morando muito longe, estávamos sempre em contato umas com as outras, seja por carta, ou telefone. O que mais impressiona em Clarice não é fato de ser irmã, e ótima como sempre foi, mas como tornou-se mãe maravilhosa. Sua maior qualidade é ser absolutamente realizada em casa. Sua sensibilidade extremamente apurada capta as sutis reações dos filhos, atendendo-os e amparando-os em todas as situações. Fora isso, gosta de música, não é gulosa, e é sobretudo um tanto frugal. Não é política, e antes de tudo, é uma dedicadíssima dona de casa. Provando assim que uma mulher pode se realizar em dois setores diferentes em grande escala.
Clarice pela irmã, Elisa Lispector, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Clarice Lispector deixou de ser um nome para ser um fenômeno de nossa literatura. Um fenômeno com todas as características de um estado emocional, quero dizer, que as admiradoras de Clarice entram em transe à simples menção de seu nome. Não querem escrever artigos, querem fazer teses. Não querem notas, querem livros. E a grande autora de “Perto do Coração Selvagem” transformou-se num monstro sagrado, ela que desejava apenas ser uma escritora humana. Clarice para mim é a autora de “Perto do Coração Selvagem” e de “O Lustre”, dois romances que eu gostaria de ver mais lidos e estudados. Também é autora dos contos admiráveis de “Laços de Família”. E por que não a de “A maçã no escuro”? Não, não é esta nem a de “Cidade sitiada”. Alguns acham que eu tenho má vontade com esses dois romances. É que quase ninguém sabe que Clarice Lispector, com “O Lustre”, se tornou uma das minhas mais violentas paixões literárias. E quem ama exige.
Clarice Lispector pelo crítico e ensaísta, ganhador do Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, Fausto Cunha, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
A partir do conhecimento que um amigo nos oferece começamos a compreender a necessidade de acumular tudo aquilo que — um receber explicando o que se entrega — nos ajuda a elaborar o que se é. Não há dádiva compensando-se como esta. Talvez por isto tenha-se pudor de explicar porque se admira, porque apenas se quer bem — quando, do outro lado, existente e integral, encontra-se Clarice Lispector, quando a linguagem acessível, onde nem mesmo se dispensa o embaraço, é tanto mais aquela que sem esclarecer sente-se constrangida apenas de reconhecer. A tarefa de identificar Clarice Lispector é extremamente penosa: não é fácil atribuir-lhe o que ela própria ultrapassa, ou retirar-lhe aquilo que tão naturalmente ela ilumina, na sua constante vigília de gente. Não sei confessar admiração que se abastece cada vez mais na sua parte humana, onde a generosidade, nobreza, bondade obrigam-me a aceitar apenas o que idealisticamente recebera crédito — pois certas aprendizagens são sempre imperfeitas na sua arrecadação. Nunca silenciei, no entanto, quanto ao seu desempenho de criadora. Considerei-a sempre, cada vez com um entusiasmo mais moderado e por isso mesmo menos sujeito a transformações, uma escritora insuperável, cuja categoria intelectual, para vergonha nossa, ainda não foi devida e necessariamente reconhecida. Embora dissesse pouco, apenas no silêncio vai-se ao encontro de um amigo.
Clarice Lispector pela escritora, jornalista e professora Nélida Piñon, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Na última fase da vida de Clarice surgiram outros, mas desde o princípio de sua vida literária fui de seus melhores amigos. Recentemente minha mulher, encarregada de uma exposição sobre ela na Casa de Cultura Laura Alvim, por ocasião dos dez anos de sua morte, ficou surpreendida ao verificar, consultando o acervo na Casa de Rui Barbosa, que a parte substancial da sua correspondência eram as cartas trocadas comigo ao longo da vida.
Em 1943 recebi em Belo Horizonte um exemplar com dedicatória de um romance chamado Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, que eu não sabia quem era. Também não sabia por recomendação de quem, talvez de Lúcio Cardoso.
Fiquei deslumbrado com o livro.
Rubem Braga conheceu Clarice em Nápoles durante a guerra — Maury Gurgel valente, seu marido, servia lá como diplomata. Quando ela veio ao Brasil, Rubem nos apresentou um ao outro.
Fiquei deslumbrado com ela.
Imediatamente nos tornamos amigos, de encontro diário, enquanto ela esteve aqui. Depois que deixou o país, a amizade continuou, intensamente vivida através de cartas, com uma freqüência ás vezes semanal, de 1946 a 1969 — durante 23 anos, portanto.
Trocávamos idéias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens “perto do coração selvagem da vida”: o que transparece em nossas cartas, que reli recentemente, é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, que nos fazia solidários ante o enigma que o futuro reservava para nosso destino de escritores.
Tornei-me uma espécie de agente literário de Clarice no Brasil. Andava às voltas com editoras para os seus livros e encaminhando seus contos para revistas. Como Senhor, por exemplo, dirigida por Paulo Francis e Nahum Sirotsky, aos quais a apresentei, numa visita que fizemos à redação da revista, na rua Santa Clara, quando ela voltou ao Brasil.
Levei-a também para os Cadernos de cultura, excelente coleção dirigida por Simeão Leal no Ministério da Educação. Saiu uma edição com o título Mistério em São Cristóvão e com um erro no nome da autora — Clarice com dois SS —, que por causa disso recolhemos, hoje uma raridade. Depois saiu outra, chamada Alguns contos, com o nome certo.
Nos originais que ela me enviou de Washington, onde passou a morar, do romance A maçã no escuro, título que sugeri — ia se chamar A veia no pulso —, fiz 340 sugestões... Ela aceitou praticamente todas. Acabei sendo eu próprio seu editor, com Rubem Braga, na Editora do Autor e a Editora Sabiá.
Lembrança de Clarice pelo escritor, cronista, editor, produtor e diretor Fernando Sabino. Foi um dos mais fiéis e dedicados amigos de Clarice, empenhando-se em encontrar editor para seus livros e publicando-os depois em sua própria editora, a Sabiá. Texto extraído de O tabuleiro de damas. Trajetória do menino ao homem feito. Rio de Janeiro: Editora Record, 1988.
Clarice Lispector é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice.
Clarice Lispector, por Fernando Sabino. O escritor já havia terminado sua longa carta, tendo, inclusive, assinado-a. Mas, parece que ao perceber que ainda resta meia folha disponível, lançou-se nesse improviso lírico, assinando-o ao final. Carta manuscrita, enviada de Nova York e datada de 10 de junho de 1946. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Porisso (sic) não te posso mandar nenhuma palavra animadora. Digo apenas que não concordo com você quando você diz que faz arte apenas porque “tem um temperamento infeliz e doidinho”. Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de nós todos, passou pela janela, na frente deles todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado. Você tem de ser equilibrista até o fim da vida. E suando muito, apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame já percorrido e do arame a percorrer — e sempre tendo de exibir para o público um falso sorriso de calma e facilidade. Tem de fazer isso todos os dias, para os outros como se na vida não tivesse feito outra coisa, para você como se fosse sempre a primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário seu número será um fracasso.
Carta de Fernando Sabino, enviada de Nova York em 6 de julho de 1946.. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Pedro Karp Vasquez
Quem escreveu: “Sou tão misteriosa que não me entendo”, não poderia mesmo ser facilmente interpretada. Contudo, até as mais impenetráveis esfinges se preocupam em oferecer, aqui e ali, pistas para a decifração de seus enigmas. Os textos de Clarice Lispector estão repletos de chaves e senhas, mesmo que estas porventura abram apenas caixas que escondem outras caixas, que escondem outras caixas que escondem outras caixas... As pistas que possibilitavam rastrear o caminho até seu eu profundo, Clarice concedia apenas aos familiares e aos amigos íntimos, mas poucos foram os que as seguiram até o fim, imbuídos da certeza de que não convém decifrar certos mistérios para não lhes embaçar o esplendor.
É difícil definir bem a própria irmã. Sempre fomos muito unidas, Clarice, Tânia e eu. Lembro-me que na infância, Clarice demonstrou logo ser independente, imaginativa e cheia de ternura. Tivemos todas uma vida muito agradável e feliz no Recife, e temos muitas saudades daqueles tempos. Embora casadas, e muitas vezes morando muito longe, estávamos sempre em contato umas com as outras, seja por carta, ou telefone. O que mais impressiona em Clarice não é fato de ser irmã, e ótima como sempre foi, mas como tornou-se mãe maravilhosa. Sua maior qualidade é ser absolutamente realizada em casa. Sua sensibilidade extremamente apurada capta as sutis reações dos filhos, atendendo-os e amparando-os em todas as situações. Fora isso, gosta de música, não é gulosa, e é sobretudo um tanto frugal. Não é política, e antes de tudo, é uma dedicadíssima dona de casa. Provando assim que uma mulher pode se realizar em dois setores diferentes em grande escala.
Clarice pela irmã, Elisa Lispector, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Clarice Lispector deixou de ser um nome para ser um fenômeno de nossa literatura. Um fenômeno com todas as características de um estado emocional, quero dizer, que as admiradoras de Clarice entram em transe à simples menção de seu nome. Não querem escrever artigos, querem fazer teses. Não querem notas, querem livros. E a grande autora de “Perto do Coração Selvagem” transformou-se num monstro sagrado, ela que desejava apenas ser uma escritora humana. Clarice para mim é a autora de “Perto do Coração Selvagem” e de “O Lustre”, dois romances que eu gostaria de ver mais lidos e estudados. Também é autora dos contos admiráveis de “Laços de Família”. E por que não a de “A maçã no escuro”? Não, não é esta nem a de “Cidade sitiada”. Alguns acham que eu tenho má vontade com esses dois romances. É que quase ninguém sabe que Clarice Lispector, com “O Lustre”, se tornou uma das minhas mais violentas paixões literárias. E quem ama exige.
Clarice Lispector pelo crítico e ensaísta, ganhador do Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, Fausto Cunha, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
A partir do conhecimento que um amigo nos oferece começamos a compreender a necessidade de acumular tudo aquilo que — um receber explicando o que se entrega — nos ajuda a elaborar o que se é. Não há dádiva compensando-se como esta. Talvez por isto tenha-se pudor de explicar porque se admira, porque apenas se quer bem — quando, do outro lado, existente e integral, encontra-se Clarice Lispector, quando a linguagem acessível, onde nem mesmo se dispensa o embaraço, é tanto mais aquela que sem esclarecer sente-se constrangida apenas de reconhecer. A tarefa de identificar Clarice Lispector é extremamente penosa: não é fácil atribuir-lhe o que ela própria ultrapassa, ou retirar-lhe aquilo que tão naturalmente ela ilumina, na sua constante vigília de gente. Não sei confessar admiração que se abastece cada vez mais na sua parte humana, onde a generosidade, nobreza, bondade obrigam-me a aceitar apenas o que idealisticamente recebera crédito — pois certas aprendizagens são sempre imperfeitas na sua arrecadação. Nunca silenciei, no entanto, quanto ao seu desempenho de criadora. Considerei-a sempre, cada vez com um entusiasmo mais moderado e por isso mesmo menos sujeito a transformações, uma escritora insuperável, cuja categoria intelectual, para vergonha nossa, ainda não foi devida e necessariamente reconhecida. Embora dissesse pouco, apenas no silêncio vai-se ao encontro de um amigo.
Clarice Lispector pela escritora, jornalista e professora Nélida Piñon, em depoimento para a matéria Na Berlinda, publicada em março de 1963 em jornal carioca ainda não identificado [provavelmente Última Hora, a julgar pelo padrão gráfico]. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Na última fase da vida de Clarice surgiram outros, mas desde o princípio de sua vida literária fui de seus melhores amigos. Recentemente minha mulher, encarregada de uma exposição sobre ela na Casa de Cultura Laura Alvim, por ocasião dos dez anos de sua morte, ficou surpreendida ao verificar, consultando o acervo na Casa de Rui Barbosa, que a parte substancial da sua correspondência eram as cartas trocadas comigo ao longo da vida.
Em 1943 recebi em Belo Horizonte um exemplar com dedicatória de um romance chamado Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, que eu não sabia quem era. Também não sabia por recomendação de quem, talvez de Lúcio Cardoso.
Fiquei deslumbrado com o livro.
Rubem Braga conheceu Clarice em Nápoles durante a guerra — Maury Gurgel valente, seu marido, servia lá como diplomata. Quando ela veio ao Brasil, Rubem nos apresentou um ao outro.
Fiquei deslumbrado com ela.
Imediatamente nos tornamos amigos, de encontro diário, enquanto ela esteve aqui. Depois que deixou o país, a amizade continuou, intensamente vivida através de cartas, com uma freqüência ás vezes semanal, de 1946 a 1969 — durante 23 anos, portanto.
Trocávamos idéias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens “perto do coração selvagem da vida”: o que transparece em nossas cartas, que reli recentemente, é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, que nos fazia solidários ante o enigma que o futuro reservava para nosso destino de escritores.
Tornei-me uma espécie de agente literário de Clarice no Brasil. Andava às voltas com editoras para os seus livros e encaminhando seus contos para revistas. Como Senhor, por exemplo, dirigida por Paulo Francis e Nahum Sirotsky, aos quais a apresentei, numa visita que fizemos à redação da revista, na rua Santa Clara, quando ela voltou ao Brasil.
Levei-a também para os Cadernos de cultura, excelente coleção dirigida por Simeão Leal no Ministério da Educação. Saiu uma edição com o título Mistério em São Cristóvão e com um erro no nome da autora — Clarice com dois SS —, que por causa disso recolhemos, hoje uma raridade. Depois saiu outra, chamada Alguns contos, com o nome certo.
Nos originais que ela me enviou de Washington, onde passou a morar, do romance A maçã no escuro, título que sugeri — ia se chamar A veia no pulso —, fiz 340 sugestões... Ela aceitou praticamente todas. Acabei sendo eu próprio seu editor, com Rubem Braga, na Editora do Autor e a Editora Sabiá.
Lembrança de Clarice pelo escritor, cronista, editor, produtor e diretor Fernando Sabino. Foi um dos mais fiéis e dedicados amigos de Clarice, empenhando-se em encontrar editor para seus livros e publicando-os depois em sua própria editora, a Sabiá. Texto extraído de O tabuleiro de damas. Trajetória do menino ao homem feito. Rio de Janeiro: Editora Record, 1988.
Clarice Lispector é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice.
Clarice Lispector, por Fernando Sabino. O escritor já havia terminado sua longa carta, tendo, inclusive, assinado-a. Mas, parece que ao perceber que ainda resta meia folha disponível, lançou-se nesse improviso lírico, assinando-o ao final. Carta manuscrita, enviada de Nova York e datada de 10 de junho de 1946. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Porisso (sic) não te posso mandar nenhuma palavra animadora. Digo apenas que não concordo com você quando você diz que faz arte apenas porque “tem um temperamento infeliz e doidinho”. Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de nós todos, passou pela janela, na frente deles todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado. Você tem de ser equilibrista até o fim da vida. E suando muito, apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame já percorrido e do arame a percorrer — e sempre tendo de exibir para o público um falso sorriso de calma e facilidade. Tem de fazer isso todos os dias, para os outros como se na vida não tivesse feito outra coisa, para você como se fosse sempre a primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário seu número será um fracasso.
Carta de Fernando Sabino, enviada de Nova York em 6 de julho de 1946.. Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Clarice por Clarice
Pedro Karp Vasquez
Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.
A descoberta do amor
“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”
Temperamento impulsivo
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
Lúcida em excesso
“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.
Ideal de vida
“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”
Escritora, sim; intelectual, não
“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”
A síntese perfeita
“Sou tão misteriosa que não me entendo.”
A certeza do divino
“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”
Viver e escrever
“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.
A importância da maternidade
“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”
Viver plenamente
“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”
Um vislumbre do fim
“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”
Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.
Leia também Os mistérios de Clarice
Pedro Karp Vasquez
Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.
A descoberta do amor
“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”
Temperamento impulsivo
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
Lúcida em excesso
“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.
Ideal de vida
“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”
Escritora, sim; intelectual, não
“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”
A síntese perfeita
“Sou tão misteriosa que não me entendo.”
A certeza do divino
“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”
Viver e escrever
“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.
A importância da maternidade
“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”
Viver plenamente
“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”
Um vislumbre do fim
“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”
Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.
Leia também Os mistérios de Clarice
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